Revista Brotéria

  
NOVEMBRO 2018 - EDITORIAL:P. Manuel Antunes – 100 anos PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
António Júlio Trigueiros, sj e Rui Miguel Fernandes, sj   

A Brotéria dedica este número de Novembro, integralmente à figura do Padre Manuel Antunes, dado que passaram no pretérito dia 3 de Novembro, cem anos sobre o seu nascimento na vila da Sertã. O P. Manuel Antunes foi diretor da revista Brotéria desde Janeiro de 1965 até 1972 e depois de novo de 1975 a 1982. Escreveu na revista ao longo de mais de quarenta anos, 418 ensaios e 570 recensões de crítica literária, sob 126 diferentes pseudónimos.

Desde muito cedo que colaborou na revista, publicando em 1940 o seu primeiro artigo “A poesia modernista. De Orpheu a “Altitude”, escrito quando tinha vinte e dois anos. Colaborará mais assiduamente a partir de 1952 “quer com nome próprio, quer sob vários pseudónimos”, como ele próprio refere num curto curriculum que redigiu.  Foi destinado à comunidade da Casa de Escritores da revista Brotéria, em 1955, e esteve até 1957 como investigador de História da Cultura na biblioteca da Brotéria. Como ele próprio confessa no referido curriculum “Desde 1958 que utiliza, quase habitualmente, as férias estivais para trabalhar nas grandes bibliotecas europeias (Museu Britânico, Bodleyana de Oxford, Nacional de Paris, Nacional e Universitária de Munique, Universidade de Colónia, várias bibliotecas de Roma e de Milão, Centro Superior dos Estudos da Renascença de Tours, etc.) quer para visitar museus e estações arqueológicas onde as civilizações grega e romana deixaram vestígios, realizando por vezes essas viagens de Estudo como bolseiro quer do Instituto de Alta Cultura, quer da Fundação Calouste Gulbenkian”.

O P. Manuel Antunes foi superior religioso por breves anos da comunidade da Casa de Escritores de S. Roberto Belarmino, designação canónica da comunidade da Brotéria. Tendo sucedido ao P. António Leite (que estava como superior desde 1958) a 6 de Novembro de 1964, a comunidade de que foi superior era composta por 10 padres e 4 irmãos. Entre eles achavam-se o canonista António Leite, o poeta e literato João Maia, o redator da Brotéria Abílio Martins, seu irmão o medievalista Mário Martins, o historiador Domingos Maurício, o historiador de história da ciência e da filosofia, João Pereira Gomes. A estes somavam-se, entre outros, o sempre presente Irmão Góis, como porteiro e hortelão (que ali viveu muitos anos) e o administrador da revista, Irmão Geraldes. Nessa época a paróquia de S. Francisco de Paula já se achava entregue à Companhia de Jesus. O P. Manuel Antunes deixou de ser superior a 26 de  Novembro de 1967, para ser novamente substituído pelo P. António Leite.

Nas muitas homenagens de que tem sido alvo por parte dos seus devotados alunos da Faculdade de Letras, onde ensinou desde 1957, a convite de Vitorino Nemésio, transparece por vezes a perplexidade de averiguar como é que um homem com o brilhantismo, a erudição e a clareza de pensamento, aliada a um espírito aberto e voltado para o futuro, possa ser sacerdote católico e membro de uma ordem religiosa, tão sujeita ao longo dos séculos às interpretações mais dispares e apaixonadas. Quase como se ser padre e jesuíta fosse uma fraqueza que se lhe perdoa, face aos muitos talentos que se lhe reconhece.

O percurso verdadeiramente improvável de um rapaz pobre de uma vila do interior de Portugal, nascido numa época pouco favorável às classes desfavorecidas, filho de pais analfabetos, poder ter vindo a alcançar tanta admiração entre os seus pares, é o resultado de uma feliz união de uma natureza intelectualmente dotada com uma sólida e aturada formação que recebeu e desde cedo bem aproveitou enquanto membro da Companhia de Jesus.  A vida do P. Manuel Antunes há-de ser compreendida como a de um jesuíta fiel à missão que a Companhia lhe confiou, colocando ao serviço os seus muitos dons, servindo o mundo da cultura, particularmente pelas suas capacidades de pedagogo e pensador, mas procurando igualmente ser muito útil aos seus companheiros de ordem, quer pela disponibilidade revelada para cargos de governo e de consulta, quer na formação dos membros mais jovens da Companhia, quer no próprio modo pedagógico como ajudou os jesuítas portugueses a acolher a Democracia que se vinha instalando em Portugal, após a revolução de 1974.

A secção cultural da revista Brotéria, fundada em 1925, a par da publicação cientifica de 1902, alcançou significativa projeção e despertou interesse entre os meios culturais, a partir da colaboração assídua do P. Antunes. Numa reunião de avaliação do papel da imprensa dos jesuítas portugueses, realizada a 31 de Outubro de 1974, em pleno período pós-25 de Abril, reconhece que a Brotéria é um ministério muito próprio e atual da Companhia para “dar resposta cristã aos problemas reais do homem de hoje” mas considera-se que a sua apresentação deveria ser mais “mordente” e actualizada. Apesar disso, tem aceitação nos meios culturais, como o provam as frequentes citações na imprensa.

A obra completa de Manuel Antunes foi já publicada e a sua figura de académico, pedagogo e pensador tem sido alvo de inúmeras homenagens. Neste ano centenário, a Academia das Ciências de Lisboa, de que foi membro, antecipou-se à efeméride e dedicou-lhe uma sessão no passado dia 8 de Março, tendo sido evocada a sua figura numa conferência proferida por Aires Nascimento, cujo texto aqui hoje publicamos.

Especial destaque merece o congresso internacional intitulado “Repensar Portugal, a Europa e a Globalização”, comissariado por José Eduardo Franco, que se realizou de 2 a 6 de Novembro, na Assembleia da República, na Câmara Municipal da Sertã, e na Fundação Calouste Gulbenkian. Na sessão de encerramento do congresso, na Fundação Calouste Gulbenkian, o P. Manuel Antunes recebeu, a titulo póstumo, das mãos do presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, seu antigo aluno, a grã-cruz da Ordem do Infante D. Henrique, cujas insígnias foram entregues a uma das suas sobrinhas. Na Igreja de S. Roque, outro seu antigo aluno, o Cardeal Patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, presidiu no dia 4 a uma missa de acção de graças pelo centenário do nascimento. Na sua alocução recordou o seu antigo mestre como “uma presença muito forte, muito profunda e também muito próxima” e que era “um homem muito bom, muito sábio e muito completo, aquilo que um professor deve ser”: “um homem de Deus, e por isso, um homem de todos e para todos”.

Para assinalar este mês centenário a equipa da Brotéria organizou um ciclo de conversas, que designou como “Brotéria fora da caixa”, em quatro diferentes cidades (Braga, Porto, Coimbra e Évora) sobre o P. Manuel Antunes e a actualidade de algumas das temáticas a que se dedicou: a Literatura, a Pedagogia, as Humanidades e a Política. Com o objectivo de dar a conhecer a figura do P. Manuel Antunes, no ano em que celebramos o seu centenário, mais do que fazer uma abordagem histórica (quem foi Manuel Antunes, o que escreveu, etc.), pretendeu-se sublinhar a actualidade do seu pensamento. Portanto, as conversas olharam sobretudo o presente e o futuro, na companhia de Manuel Antunes, tendo como convidados especialistas nessas áreas, provenientes das diferentes cidades onde se realizaram as conversas.

Nunca será demais recordar a figura tão inspiradora do P. Manuel Antunes, com um pensamento tão atual e a revista Brotéria, que tanto lhe deve, não poderia deixar de lhe prestar este singelo preito de gratidão, dedicando-lhe o presente número.

 
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