Revista Brotéria

  
AGOSTO/SETEMBRO 2018 - Editorial: Tempo e espaço, unidade e conflito PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
António Júlio Trigueiros, sj   

Quando em 2013, o Papa Francisco postulava na exortação apostólica Evangelii Gaudium alguns princípios de discernimento aplicados à evangelização, estava certamente longe de saber como eles se aplicariam ao momento doloroso que a Igreja está a viver, com o recrudescer das revelações relativas aos abusos sexuais perpetrados ao longo de décadas por parte de membros do clero, em numerosas dioceses, agravadas por uma politica de silenciamento e encobrimento que se revela intolerável em qualquer instituição de bem.

Um desses princípios postulava que o tempo é superior ao espaço. Este principio “ajuda a suportar, com paciência, situações difíceis e hostis” e procura privilegiar as ações que geram novos dinamismos na sociedade e comprometem outras pessoas e grupos que os desenvolverão até frutificarem. Sem ansiedade, mas com convicções claras e tenazes”. Todo o esforço que tem sido feito desde o anterior pontificado para a aplicação de uma politica de tolerância zero contra abusadores e encobridores, de acompanhamento das vítimas. de colaboração com as autoridades e acima de tudo de prevenção e atenção a situações de risco, com a obrigatoriedade de todas as instituições eclesiais que lidam com pessoas vulneráveis terem critérios muito claros de atuação e prevenção, são um claro sinal de esperança. Geradoras de uma nova mentalidade e de um compromisso sério estes esforços acabarão por se manifestar no tempo. Como diz o próprio Francisco “a parábola do trigo e do joio descreve como o inimigo pode ocupar o espaço do Reino e causar dano com o joio, mas é vencido pela bondade do trigo que se manifesta com o tempo”.

Outro principio postulava que a unidade deve prevalecer sobre o conflito. O conflito não pode ser ignorado ou dissimulado; deve ser aceite. “Mas se ficamos encurralados nele, perdemos a perspetiva, os horizontes reduzem-se e a própria realidade fica fragmentada. Quando paramos na conjuntura conflitual, perdemos o sentido da unidade profunda da realidade. Perante o conflito, alguns limitam-se a olhá-lo e passam adiante como se nada fosse, lavam as mãos para poder continuar com a sua vida. Outros entram de tal maneira no conflito que ficam prisioneiros, perdem o horizonte, projectam nas instituições as suas próprias confusões e insatisfações e, assim, a unidade torna-se impossível. Mas há uma terceira forma, a mais adequada, de enfrentar o conflito: é aceitar suportar o conflito, resolvê-lo e transformá-lo no elo de ligação de um novo processo”. A unidade pede muita renúncia, muita cedência. A unidade não é a massificação sincrética, exige abertura aos dons do Espírito. Não julga pelas aparências. Exige não cair em radicalizações, em extremar posições, mas não cair igualmente em lavar as mãos, em desculpar-se, em fugir ao conflito.

Perante o claro aproveitamento que alguns sectores da Igreja fizeram na sequência da visita de Francisco à Irlanda, no passado mês de agosto, de utilizar esta penosa luta, para descredibilizar e fragilizar o próprio pontífice, lançando a suspeita de não ter igualmente agido contra um cardeal norte americano acusado de diversos abusos, o modo como o papa agiu é inequívoco. Antes de mais, num ato inédito, destituindo o cardeal de todas as suas funções, não se deixou encurralar no conflito, nem lavou as suas mãos, mas aceitou suportar esse conflito, transformando-o num elo de ligação de um novo processo – o de convocar os presidentes de todas as conferências episcopais, que aliás na sua esmagadora maioria tinham manifestado inteira solidariedade com o papa, para uma cimeira a realizar no próximo mês de fevereiro, sobre proteção de menores. O que daqui possa resultar será sem dúvida uma igreja mais unida numa mesmo esforço por gerar processos de transparência e segurança perante tão devastadora realidade como é a dos abusos.

O que fica desde já claro, é que na carta que entregou aos bispos chilenos em Maio passado, Francisco entende os abusos como efeito de uma “psicologia de elite ou elitista” dos membros do clero, “que acaba por gerar dinâmicas de divisão, separação, ‘círculos fechados’ que desembocam em espiritualidades narcisistas e autoritárias nas quais, em vez de evangelizar, o importante é sentir-se especial, diferente dos demais, deixando assim em evidência que nem Jesus Cristo, nem os outros interessam verdadeiramente. Messianismos, elitismos, clericalismos são todos sinónimos de perversão no ser eclesial”.

Na carta que a Conferência Episcopal Portuguesa endereçou no passado dia 3 de setembro ao Papa Francisco, os bispos portugueses depois de agradecerem a “oportuna e corajosa Carta ao Povo de Deus, sobre o drama do abuso de menores por parte de membros responsáveis da Igreja”, manifestam que partilham do sofrimento do Papa e de toda a Igreja. Propõem-se “seguir as orientações para erradicar as causas desta chaga” e incrementar “uma cultura de prevenção e proteção dos menores e vulneráveis” em todas as suas comunidades. Acrescentam ainda que “neste momento, perante tentativas de pôr em causa a credibilidade do Seu ministério”, querem manifestar a sua fraterna proximidade e o total apoio à sua pessoa, a plena comunhão com a sua missão de Pastor universal e completa adesão ao seu magistério.

Nesse sentido resta-nos esperar que desta crise profunda que infelizmente deixa atrás de si um rasto de sofrimento e de dor, nascerá certamente um renovado empenho numa igreja mais despojada, mais transparente e mais centrada na sua verdadeira missão de ser sinal da presença de Jesus Cristo no mundo.

 
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