Revista Brotéria

  
MARÇO 2018 - Portugal e o mundo - o fim das ideologias PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Filipe Anacoreta Correia*   

ATUALIDADE

 

Portugal e o mundo

– o fim das ideologias


 

1. A história repete-se?

Para quem nasceu na década de 90, 80 ou mesmo 70 nunca como hoje se viveu um tempo tão efervescente. Por detrás da sucessão de dias, que sempre se nos apresentam com normalidade e sem vazios, a história parece caminhar para um muro de desconhecido. A este propósito, ocorre o best seller de Cristopher Clark de 2012. Sob o título sugestivo – “Os sonâmbulos” – a tese é simples: a trama da primeira grande guerra foi sendo desenvolvida paulatinamente, mas de uma forma tão óbvia que só não via quem estava a dormir. O autor descreve episodicamente como a falta de confiança entre diplomatas e protagonistas políticos internacionais conduziu à proliferação de “mapas mentais”. A corrosão das alianças entre países foi simplesmente acontecendo, aos olhos de todos, mas ninguém mediu as consequências.

Não será que Clark escreve também para o nosso tempo?

 

2. A ideologia está no ar!

Quando Fukuyama, na sequência da queda do muro de Berlim, decretava o alcance da vitória das democracias liberais ocidentais proclamando o fim das ideologias, não conseguiria imaginar que cerca de 30 anos depois, a política em Portugal – para Huntington o país predecessor da Terceira vaga de democratização – se faria maioritariamente em torno de um posicionamento ideológico de esquerda, numa amálgama que reúne socialistas, trotskistas e comunistas.

Se olharmos para a Grécia, para a Espanha –ao nível nacional, mas sobretudo municipal e regional – e agora para Itália (sem esquecer o Reino Unido e para referir apenas alguns) - é no extremismo da esquerda que se conquistou ou ameaça conquistar o poder.

E, por seu lado, em França, Áustria, Hungria, Polónia (e nos EUA?) é no outro extremo – o da direita - que se cresce.

Ou seja, parece que hoje a política ideológica é a que mais ordena. Tais sinais são suficientemente alargados para não serem considerados pontuais, isolados ou marginais.

Será que estes extremos (sejam eles de esquerda ou de direita) se liberalizaram e integraram a democracia ocidental proclamada por Fukuyama? Ou será que foi este filósofo que se enganou redondamente?

No espaço do centro político (até há bem pouco tempo ocupava entre 60% a 80% dos espaços partidários na generalidade dos países europeus), há muitas vezes a propagação da ideia de que as boas políticas não são ideológicas. Que o que importa é encontrar soluções tecnicamente válidas. Que a ideologia é coisa do passado.

As ideologias, afinal de contas, estão vivas ou são esqueletos do passado? Interessam ou não interessam ao debate político?

Uma coisa parece certa, a primeira consequência desta vaga de política ideológica é uma alteração profunda dos “mapas mentais” (para usar a expressão de Clark) o que interfere nos equilíbrios geo-estratégicos. Noutro tempo, seria mais difícil de conceber a força do independentismo na Catalunha e a erosão de um Estado com mais de 500 anos.

 

3. Já não é uma ameaça, mas uma realidade

O extremismo e o populismo são identificados como uma ameaça à Humanidade. Documentos de análise estratégica de várias instituições internacionais – da Organização das Nações Unidas, à União Europeia, passando por qualquer analista financeiro – apontam para o perigo do populismo. Meio mundo está ainda em choque com o que vai vendo todos os dias.

Não será de estranhar ver Francisco Louçã no Conselho Consultivo do Banco de Portugal, autoridade nacional que seguindo orientações e instruções do Banco Central Europeu deve promover a política monetária?

Claro que isso parece irrelevante ao lado de Donald Trump que, sim, é mesmo o Presidente dos Estados Unidos da América e que para tal pode ter sido apoiado por Vladimir Putin.

Em Itália, a terceira economia da União Europeia e a oitava do mundo, consumou-se mais um passo: o extremismo anti-europeu conquistou o poder.

Ao olhar para esta sucessão de factos, é impossível não questionar: Como chegámos aqui e para onde nos estamos a deixar levar?

 

4. A violência como arma política

O populismo afronta hoje aquilo que denuncia como a tirania do politicamente correto. É um alvo fácil. Quem não sentiu já frustração ao assistir que o que pensa, vê e sente é afastado, quando não ridicularizado, por uma tirania que não se deixa sequer questionar? Quem não identificou já, por exemplo a propósito da ideologia de género, um conjunto de estruturas que ditam o que se deve legislar, sem que tais estruturas tenham sido sequer escrutinadas e muito menos legitimadas democraticamente?

Também o medo, e em particular diante do estrangeiro muçulmano, é rastilho no tabuleiro do populismo ocidental. Populações mais expostas a esta realidade acusam as autoridades de cegueira diante do que consideram ser uma ameaça à segurança, à liberdade e ao nosso modelo de sociedade. Terá sido este, de resto, um dos argumentos decisivos na votação do Brexit e também nas recentes eleições de Itália.

Finalmente, a corrupção – tão alargada a tantos países - mina a confiança e ajuda à trajectória disruptiva. A falta de ética em instituições privadas como os bancos tem consequências terríveis, que invariavelmente são os mais vulneráveis que sofrem em primeiro lugar. A vontade de “correr com todos” não cuida de saber quem são os candidatos ao lugar.

 

5. A globalização e o proteccionismo

Com o passar do tempo, uma coisa vai parecendo certa: o mundo divide-se cada vez mais entre aqueles que desejam ou simplesmente aceitam e os que temem e combatem a globalização. A globalização foi surgindo silenciosa e gradualmente, mas hoje é a causa mais determinante das alterações profundas e estruturais no nosso modelo social, político e económico. Todo o debate político tem subjacente a realidade da globalização. Quando vemos lutas sobre a legislação laboral é de globalização que estamos a falar – como adoptar determinado enquadramento jurídico que pretende reforçar direitos dos trabalhadores quando isso poderá conduzir à saída de investimento e ao enfraquecimento dos trabalhadores? E do mesmo modo quando discutimos políticas fiscais é de globalização que estamos a falar – como aumentar receitas sem provocar a fuga dos contribuintes? Quando falamos de financiamento do Estado Social ainda e sempre é de globalização que estamos a tratar. O decisor político não tem diante de si apenas o eleitor, mas depende totalmente do mundo inteiro, da forma como é percepcionado por investidores, turistas, agências de rating, pessoas e capitais que se movem livremente dentro e fora de fronteiras. O populista não quer saber disso: para ganhar basta satisfazer o eleitor, mesmo que para isso afunde os seus no isolamento.

 

6. Pobreza e desigualdade

Raramente os eleitores são cativados de outra maneira que não seja centrada na sua circunstância. Ninguém se comove com os resultados no combate à pobreza do outro lado do mundo. Certo parece ser que nos últimos 35 anos 800 milhões de pessoas terão saído da pobreza extrema só na China. Antes da sua crise política, o Brasil era também considerado um exemplo no seu combate à pobreza. Segundo o relatório das Nações Unidas para o Desenvolvimento, publicado em 2015, o mundo conseguiu reduzir a pobreza extrema para metade entre 1990 e 2012 – de 47% para 22%. O Brasil reduziu de 25,5% para 3,5%. A globalização também é isto.

Apesar disso, no ocidente a globalização é referida como causa de pressão social e do aumento de desemprego e da pobreza.

O ocidente tem razão noutra coisa: a globalização tem comportado um acentuar da desigualdade. Apesar de contribuir para a saída de muitas pessoas da pobreza no mundo, a globalização tem também contribuído para a multiplicação de fortunas e o acentuar da diferença entre multimilionários e os outros. Recentemente, uma Organização Não Governamental – a Oxfam – divulgou que 80% da riqueza criada ficou na mão de 1% da população. No Brasil, 5 pessoas detêm mais do que os 100 milhões brasileiros mais pobres.

Há muita gente a ganhar com a globalização, mas alguns poucos ganham muito mais do que outros. Com o emergir da nova economia, essa realidade ganha uma nova dimensão: os ganhos tecnológicos necessitam de muito pouca mão de obra. Cada vez mais, a economia que conta envolve menos pessoas no seu processo lucrativo. E os que ficam de fora? Os que ficam de fora não parecem muito entusiasmados com a ideia.

 

(do Relatório do Desenvolvimento Humano do PNUD, 2016, p 45)

 

 7. A localização da democracia: ausência de opções

Um dos aspectos mais problemáticos da globalização diz respeito ao desacerto das instituições democráticas. Vota-se com a noção de que os eleitos não são quem manda ou, pelo menos, estão muito condicionados na sua autoridade. Por outro lado, os poderes financeiros globais, que têm efetivamente condições para ter impacto na realidade, a esses não lhe conhecemos o rosto muito menos o seu pensamento. Teme-se que o controlo financeiro dite o controlo da comunicação e da informação de uma forma crescentemente opaca.

Esta circunstância cria não só uma sensação de enorme frustração diante das instituições democráticas como levanta as maiores reservas à democraticidade dos movimentos e tendências globais, em particular quando tenham carácter político ou económico como sucede com tantas agendas. A ausência de entidades regulatórias com capacidade efetiva de acompanhamento ao nível global diz-nos da enorme dificuldade de integrar e orientar o fenómeno global. E quando assim é pode ser tudo. Não era assim a lei da selva?!

 

8. Millennials e a vulnerabilidade das sociedades ocidentais

Millennials, Geração Y ou, como a apelidou a revista Time em 2013, The Me Me Me Generation. Estes são alguns dos nomes com que se baptiza a geração que nasceu aproximadamente entre 1980 e os 20 anos subsequentes e que hoje terá entre 18 e 40 anos. Vários artigos internacionais, nomeadamente nos EUA, detêm-se nas características desta geração. Um uso crescente das comunicações, dos media e das tecnologias digitais, narcisistas, com dificuldade em adiar a satisfação, sem apego às instituições, mas ligado ao mundo e aos amigos através das redes de internet, partilhando um idealismo pragmático, socialmente liberal e tendencialmente vulneráveis aos ditames do politicamente correcto. Esta é a geração que terá de fazer frente aos desafios do seu tempo. Estará preparada?

 

9. Este mundo que está louco: aqui tão perto e tão longe

Os cristãos são muitas vezes desafiados a comprometerem-se na política.  No entanto, não é incomum que essas tentativas resultem desastrosas. Cristão que é bom pai de família é educado, desconfia do poder e raramente tem tempo para se deter na intriga pública.

A quem sai do seu reduto, não é invulgar ouvi-lo soltar a exclamação que Obélix imortalizou: estes tipos são loucos!

Aqueles que se aventuram um pouco para além do costume não raramente confessam dúvida, primeiro, medo, depois e, por fim, verdadeiro pânico.

Os cristãos são, pois, sensatos e ponderados. Talvez em resultado disso, cada vez a sua maneira de ver o mundo é mais estranha ao debate público.

E o debate público é também cada vez mais estranho ao ambiente recatado das comunidades cristãs.

Quem sabe se o julgamento histórico nos há-de perdoar se passarmos ao lado da humanidade, no tempo que nos foi dado viver.

Mas não tem sido sempre esse afinal o nosso dilema? Não é isso que nos conta a parábola do bom samaritano?




* Advogado e Deputado.

 
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