Revista Brotéria

  
ABRIL 2017 - “Meu Deus, Porque Me Abandonaste? PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Hans Zollner, sj *   

Espiritualidade e conduta perante o abuso

Num encontro com o Papa Francisco, uma vítima de abuso disse com profunda tristeza e desespero: “Jesus tinha consigo a sua mãe quando viveu a sua Paixão e Morte. A minha mãe, a Igreja, abandonou-me na minha dor e na minha solidão”. Nesta frase pode ser reconhecido parte do horror do abuso, no que respeita especificamente ao abuso sexual de menores em contexto eclesial, e o que a Igreja e em particular os seus membros em posições de responsabilidade têm de mudar.

Entra aqui em jogo a dimensão espiritual e religiosa, que adquire um significado particular no abuso por parte de um membro do clero.

Se uma pessoa for abusada pelo seu próprio pai, continua a ter ainda alguém a quem pedir auxílio: Deus. Mas se quem abusa é um padre, alguém que ex officio representa Deus e de quem a teologia diz que é alter Christus, então é a imagem de Deus que fica distorcida, e a vítima pode cair numa abissal escuridão e solidão. Isto pode também ocorrer se o abusador não for um clérigo, só que, sendo padre, torna-se ainda mais grave, em especial para aqueles para quem a fé, os sacramentos e a relação com Deus foram outrora relevantes. Para muitas das vítimas a capacidade de acreditar em Deus, ou de confiar n’Ele, fica para sempre danificada ou mesmo destruída.

As vítimas: o seu ponto de vista e o seu sofrimento

Não é raro que aqueles que sofreram de modo tão tremendo às mãos de representantes da Igreja, e que o querem verbalizar e ser ouvidos, sejam rejeitados ou censurados como perturbadores e que melhor seria se desaparecessem. Também por isso o perigo de trauma espiritual – para “além” do trauma psicológico e físico – é muito elevado.

O alcance deste perigo parece ainda não estar suficientemente claro para muitos membros da Igreja, e particularmente para alguns mais responsáveis. No entanto, é necessário assumir que especialmente aqueles que têm a missão de anunciar e ensinar o Evangelho deveriam ser os primeiros a considerar que certos acontecimentos da vida – neste caso, um trauma profundo – tocam e marcam o núcleo espiritual de um ser humano crente. Não deixa de ser estranho que isso raramente aconteça. Talvez assim se explique porque é que os bispos e provinciais se pronunciam mais sobre as questões legais e canónicas da Igreja e com as perspetivas psicológicas, do que com os aspetos espirituais ou teológicos do abuso.

Por essa razão, não é surpreendente que as vítimas não façam a experiência da Igreja como uma “mãe amorosa”, mas como uma instituição fria e calculista na resposta que dá às denúncias de abuso (significativamente, esse é o início da Motu Proprio do Papa Francisco, ao recordar aos bispos e provinciais a co-responsabilidade na deteção e prevenção do abuso).

A Igreja: santa e cheia de pecadores

A Igreja foi fundada e convocada pelo seu Senhor Jesus Cristo para anunciar e proclamar a Boa Nova: Deus ama os homens, é misericordioso e faz tudo para os salvar, até ao ponto de dar a sua vida por eles no seu Filho.

Inúmeras pessoas têm desempenhado esta missão nos últimos dois mil anos, contribuindo para que a Igreja possa ser um maravilhoso sacramento de salvação ao serviço dos pobres, dos doentes e dos mais vulneráveis.

No entanto, é preciso também dizer-se que na Igreja sempre houve pessoas que fizeram exatamente o oposto do que elas próprias, a Igreja e Jesus proclamaram. Não é sem razão que os Papas das últimas décadas têm pedido repetida e enfaticamente perdão pelos pecados e crimes cometidos por representantes da Igreja.

O reverso: exigência e chamamento de Jesus

Confrontar-se com o tema de abuso sexual de menores cometido por parte de sacerdotes é chocante e doloroso. Trata-se de sexo e violência, trata-se de abuso de confiança, de vidas arruinadas e de hipocrisia – e tudo isto no seio da Igreja.

É, em certo sentido, compreensível que se procure fugir destas questões, na medida em que tocam o foro pessoal e institucional.

Mas não é só a psicologia moderna que aponta para as imprevisíveis e trágicas consequências da repressão – também o próprio Jesus e muitos mestres espirituais depois d’Ele o fizeram: aqueles que não enfrentam o seu lado mais sombrio serão, mais cedo ou mais tarde, confrontados com ele de modo ainda mais intenso. O filme “Spotlight”, que denuncia décadas de encobrimento de abusos por parte de padres em Boston (E.U.A.), descreve este mecanismo de modo muito realista.

Deve notar-se que o abuso sexual de menores acontece em todo o mundo (1). Ainda que não haja estatísticas para muitos lugares, pode depreender-se dos comunicados da Congregação para a Doutrina da Fé – a autoridade da hierarquia da Igreja que promove os processos contra os padres acusados – que este tipo de abuso ocorre em todas as Igrejas locais.

Um dos argumentos frequentemente usado, nomeadamente o de que a violência sexual contra menores é um problema das igrejas ocidentais decadentes, demonstra-se falso e enganoso. Desvia a atenção do facto de manifestamente existirem fatores na vida da Igreja que ou favorecem o abuso, ou dificultam ou obstam à sua deteção e punição.

Especialmente ao abordar este tema a partir de uma perspetiva global, torna-se claro que a Igreja Católica é uma comunidade de fé à escala mundial, e que é infinitamente diversificada e complexa, ao mesmo tempo que coexistem na sua prática quotidiana grandes semelhanças e elementos constantes (2).

Naturalmente não é fácil expor tanta maldade e tanto sofrimento. Isto é particularmente verdade quando não nos sentimos pessoalmente responsáveis. Mas padres e bispos são identificados em qualquer lugar do mundo com o bem e o mal que acontece na Igreja e com o modo como agem os seus irmãos no sacerdócio. São vistos como os representantes de Cristo e da sua Igreja – e são-no igualmente na sua própria compreensão teológica – muito mais a partir do exterior do que no seu dia-a-dia. Quanto mais as pessoas estão afastadas da Igreja, mais têm dela uma imagem de uma entidade uniforme e monolítica. Esta é uma das razões pelas quais cada abuso cometido por um padre recai sobre todos os padres e sobre a Igreja como um todo.

Os Padres: o seu estado e a sua formação

A questão do que é característico no abuso por sacerdotes católicos não se limita evidentemente apenas ao papel do sacerdócio em si mesmo, à sua função mediadora e ao poder espiritual e real, pois tudo isto se encontra de forma mais ou menos idêntica nos dignitários religiosos no Islão – vejam-se os relatos dos números tremendos de abusos nas Escolas-Madrassas, na Grã Bretanha –, no Budismo, no Hinduísmo, no Judaísmo ou nas religiões animistas.

O celibato também não é uma característica exclusiva da Igreja Católica de rito latino, uma vez que noutras religiões e seus subgrupos há sacerdotes, monges e monjas que vivem em celibato (3).

Mais precisamente, também nenhum dos elementos a seguir indicados é exclusivo da Igreja Católica ou dos seus clérigos, mas possivelmente a sua combinação é característica comum dela.

Lidar com a própria sexualidade

Lidar com a própria sexualidade é um desafio constante paratodos os seres humanos. A muitos padres que prometem viver em celibato não é oferecido suficiente acompanhamento humano e espiritual.

Este acompanhamento deveria abranger um processo sério de verificação de aptidão ao sacerdócio, levado a cabo num sistema modular de unidades de formação, nas quais poderiam ser abordados os próximos passos de desenvolvimento e um sustentável acompanhamento ministerial e espiritual após a ordenação sacerdotal.

De outro modo não aprendem a lidar com as suas necessidades sexuais, emocionais e relacionais de modo saudável e integrado. Apesar das indicações inequívocas da mais alta instância para a formação para o sacerdócio – mais uma vez sublinhadas na Fundamentalis Ratio, publicada pela Congregação para o Clero de 8 de Dezembro de 2016 – a formação da maturidade humana desempenha de facto apenas um papel secun-dário na maioria dos percursos de formação para futuros religiosos e sacerdotes. Considerando que as crises vocacionais são largamente despoletadas pelo facto de as pessoas se apaixonarem e notarem então – muitas vezes pela primeira vez, conforme dito pelos próprios – que sentem falta de uma relação e de uma família, é de estranhar que as pessoas responsáveis pela sua formação não invistam tempo e energia onde parece residir a maior necessidade (4). A psicologia do inconsciente (Tiefenpsychologie) refere aqui os mecanismos defensivos de repressão e negação de impulsos vitais. Espiritualmente poderiam ser designados como Akedia e Inertia – negligência e inércia. Poderá ser arriscado afirmar que a recusa dos responsáveis em levar a sério a experiência espiritual e os processos humanos e de tomar algumas decisões óbvias se transfere direta e indiretamente para aqueles que estão em formação.

Com processos repressivos deste género, arriscamo-nos a “provocar” aquilo que tem sido negado ou demonizado – neste caso, o desejo sexual, misturado com muitas outras necessidades não resolvidas - numa resistência, tanto ativa como passiva, relativamente a tudo o que é relevante acerca das inquietações e desafios que este assunto levanta; ou pelo seu exercício descontrolado, nomeadamente onde é expectável que haja menor resistência – no nosso caso, junto de crianças ou adolescentes.

Há pelo menos duas outras áreas temáticas a nomear, que não podemos abordar aqui mais detalhadamente: por um lado, os desafios específicos enfrentados pelos candidatos ao sacerdócio que são homossexuais; por outro lado, a comunicação virtual e a formação de relações, bem como o uso de pornografia na Internet.

Compreensão do sacerdócio na Igreja Católica

O modo como se compreende o sacerdócio e o papel dos padres na Igreja Católica contribui também de maneira determinante para que os casos de abuso de menores sejam revelados demasiado tarde.

Em muitas partes do mundo, e também nalguns grupos das nossas latitudes, os padres continuam a ser vistos como intocáveis mensageiros do divino, a quem foi atribuído, de modo especial, poder, autoridade e missão diretiva – mais ou menos diretamente recebida de Deus.

Uma tal imagem do sacerdócio, em que o elemento de culto e a sacralização tem preponderância, pode conduzir a que os crentes construam uma idealização reverencial e intocável, que dificulta ou impossibilita criticar um sacerdote, ou mesmo gerar uma incapacidade de imaginar que ele poderia fazer alguma coisa má.

Isto explica algo que, visto de fora da Igreja, é considerado incompreensível nos dias de hoje. As vítimas descrevem frequentemente que foram elas – e não o padre – quem se sentiu mal e sujo, quando houve um contacto sexual.

Outros experienciaram as atenções físicas e emocionais da parte de padres como algo que os promovia e tornava únicos, como algo que os “elevava à esfera sacerdotal”. Se procuramos resposta à questão de saber porque é que tantas vítimas não foram capazes de mencionar, durante anos e décadas, os abusos que sofreram, uma das chaves é o conflito de consciência e o dilema inconciliável entre o se ter tornado vítima de um ato de violência incompreensível e o fardo excessivo de ter de atribuir a culpa de semelhante crueldade a um sacerdote.

Para além disso, deve ser tido em conta que muitas vítimas de violência sexual eram próximas dos padres que as abusaram, enquanto acólitos, responsáveis de grupos de jovens ou residentes em internatos. Frequentemente eram particularmente fervorosos e cheios de confiança – uma confiança que foi depois abusada e destruída.

Aqueles que na sua infância e adolescência aprenderam a ver um sacerdote como alguém inquestionável, uma vez candidatos ao sacerdócio podem facilmente considerar evidente não terem de se justificar perante quem quer que seja, pois adquirem um poder sagrado, com o qual podem fazer o que quiserem.

Uma tal conceção pode explicar, pelo menos em parte, como é que padres que abusaram de crianças e jovens o negam completamente, ou até se vêem como vítimas ou se revêem como quem o fez para ajudar (“ele seduziu-me”, ou “ela gostava”) e frequentemente não demonstram compreender o sofrimento que causaram.

Pode-se igualmente observar que alguns candidatos ao sacerdócio entendem o ser seminarista e o ser sacerdote como uma profissão comum, onde depois das horas de expediente podem, “em privado”, fazer coisas que não são compatíveis com o ser padre. Aspiram aos privilégios, poder e beleza do ofício, mas não estão dispostos a pagar por isso o preço de que fala o Evangelho: pobreza, castidade, obediência e, em última análise, perder a vida por Jesus. Isto coloca maiores riscos para os indivíduos, que poderão vir a cometer abusos de todos os tipos, mas também para as suas comunidades, dioceses e toda a Igreja.

Mentalidade Defensiva (Burgmentalität)

Finalmente, um elemento adicional presente na especificidade do contexto católico, que torna o abuso possível e obsta a que seja desmascarado, é a mentalidade a que se poderia chamar mentalidade defensiva (Burgmentalität). Refere-se a quem deseja fazer tudo “para si mesmo”, excluindo a esfera pública, porque teme pela sua reputação e, assim, esquece tanto o sofrimento das vítimas (que não equaciona, por isso devem ser silenciadas), como aquela lei

dos media que estabelece: “seja como for, mais cedo ou mais tarde vai tornar-se público, é melhor assumir o erro, pedir honestamente desculpa e algumas pessoas acreditarão.”

É frequente aqui também que uma interpretação parcial da relação especial e de responsabilidade do bispo para com os seus sacerdotes desempenhe um papel importante. Por um lado, não é considerado que um “cuidado paternal” inclui não só o perdão e a misericórdia, mas também um castigo justo. Por outro lado, isto é expressão do espírito de corpo, em que os bispos pensam primeiro na proteção “dos seus” e só depois no bem-estar dos pobres e dos necessitados.

Mencione-se aqui à margem que muitos dos agressores são muito hábeis a “salvar a pele” e a manipular os seus superiores, e que estes superiores acreditam com demasiada boa fé no que lhes é prometido (“nunca mais volto a fazer isto”) e depois usam de compaixão (mal-entendida) para com os perpetradores.

Seguindo este suposto raciocínio, não é procurado auxílio competente no exterior e pensa-se poder chegar a uma solução apenas com recursos e estratégias próprias.

Desse modo fechamo-nos no nosso próprio “castelo” e descuramos o facto de terem sido especialmente os sistemas eclesiais fechados, como os da Irlanda ou dos mundos católicos da Austrália ou dos E.U.A. – ali, onde a igreja determinava tudo do nascimento até à morte – que deram lugar a abusos com uma frequência e duração aterradoras.

Algo similar se aplica a algumas congregações e novas comunidades espirituais que surgiram imediatamente antes ou pouco depois do Concílio Vaticano II e que, por muitos anos, também por causa do número relativamente elevado de vocações, eram olhadas como grande esperança para a Igreja. Nos últimos anos, contudo, descobriu-se que numa série destes grupos – muitos dos quais

misturam um posicionamento eclesial marcadamente conservador, com as assim chamadas formas tradicionais da liturgia e teologia – se verificavam graves e variados tipos de abuso.

Alguns dos exemplos mais conhecidos – infelizmente, longe de serem os únicos! – são os Legionários de Cristo (fundados no México); a Communauté des Béatitudes (fundada em França), a Comunità Missionaria di Villaregia, do Norte de Itália, Sodalitium Christianae Vitae (do Perú), bem como um grupo em torno do padre Fernando Karadima, em Santiago do Chile. Estes casos não estão todos associados ao abuso sexual de menores, mas sim ao abuso sexual daqueles que estão sujeitos à sua proteção, tais como os noviços(as) ou estudantes. Apelando ao voto de obediência, e com práticas religiosas estritas, criaram-se relações de dependência extremas, em que qualquer tipo de crítica era proscrita e punida. Regras importantes da tradição espiritual (!) como a separação do foro interno e do foro externo não foram cumpridas, para já não falar de casos de abuso do sacramento da reconciliação (tanto a quebra do sigilo confessional como a absolutio complicis, i.e, a absolvição de um cúmplice na violação do sexto mandamento).

Haveria que dedicar, neste contexto, um capítulo próprio às personalidades dos fundadores. Alguns destes fundadores foram excluídos das suas comunidades devido a abusos sexuais, irregularidades financeiras e coerção de consciência, e foram sujeitos a sanções eclesiásticas, incluindo a excomunhão. Foram frequentemente capazes de dirigir pessoas e obras por décadas, sem que ninguém se atrevesse a questionar o seu poder absoluto e as suas pretensões, tidas como espiritualmente justificadas. Não existindo órgãos de controlo funcionais, nem um sistema de “freios e contrapesos” (checks and balances), podiam atuar livremente. Nem todas estas pessoas eram ou são padres, o que aponta mais uma vez para a problemática mais profunda: sempre que um meio social/eclesial se isola e demoniza um debate aberto e exclui processos de aprendizagem e de desenvolvimento, cresce exponencialmente o perigo de abuso.

Estruturas obscuras e processos hierárquicos confusos, que criam um vazio e de certo modo são um polo oposto à Mentalidade Defensiva, promovem igualmente condições para a possibilidade de abuso. Nesse sentido aponta, por exemplo, um documento designado Deetman Report, em que são descritos os casos de abuso na Igreja Católica da Holanda. É surpreendente o número de questões processuais por resolver que o escândalo à volta dos casos de abuso trouxe ao de cima. Um exemplo, entre muitos, é o da clarificação da responsabilidade dos bispos e dos provinciais pelos comportamentos impróprios de padres, ou seja, a negligência quanto aos seus deveres de exercício de autoridade. Este tema é discutido há anos no mundo anglo-saxónico sob a designação bishop’s accountability (prestação de contas dos bispos).

Se não há uma responsabilização clara, cada um pode “lavar as mãos” na desculpabilização. Nem o “castelo” da mentalidade defensiva, nem este caótico campo aberto são, assim, desejáveis. Autoridade e liderança são necessárias, principalmente quando se trata de proteger a vida humana. Contudo, o poder relacionado com essa autoridade e liderança tem de ter um controlo exterior e uma atitude interior que de facto interprete essa missão ou posição no sentido que Jesus lhe dá: “Quem no meio de vós quiser ser o primeiro, seja vosso servo”.

Para nós em comunidade: perguntas e desafios

Numa sociedade onde um dos valores mais elevados é a credibilidade, a crise dos abusos levanta questões cruciais: estamos prontos para refletir sobre o nosso modo de ser Igreja? Enquanto nos opusermos a isso, enquanto reprimirmos a injustiça e o infortúnio que foi provocado, enquanto pensarmos que poderemos regressar ao trabalho pastoral “real” o mais depressa possível após os escândalos, o nosso olhar permanece centrado em nós mesmos e as nossas energia e criatividade apostólicas continuam bloqueadas.

O Papa Bento XVI, que de modo coerente procedeu contra agressores em posições de muito destaque, deixou, com a sua resignação, um sinal único sobre como lidar com o poder (eclesiástico). O Papa Francisco não se cansa de denunciar as pragas do clericalismo, do carreirismo e de um estilo de vida confortável, nem de pregar a conversão à simplicidade e proximidade ao Evangelho.

Sobre as causas e efeitos psíquicos do trauma espiritual das vítimas de abusos, algumas questões que importa levantar são:


  • Como deve a hierarquia definir a doutrina e a forma de exercer as funções sacerdotais, de modo fiel ao Evangelho?
  • Como podem os homens e as mulheres, nas suas diferentes formas de estar, compreender e gerir o poder?
  • Que podemos aprender daquilo que na sociedade e na economia se chama corporative governance e compliance, para uma genuína co-responsabilidade e mecanismos de controlo aplicáveis à estrutura eclesial?
  • O que pertence, de facto, à especificidade do sacerdócio, e o que pode ou deve ser delegado, pela liderança que está atribuída aos padres nas paróquias e outras instituições, aos que com eles trabalham?
  • Como pode ser exercitado o discernimento, pessoal e comunitário, nesse processo exigente que permita encontrar um caminho convincente entre o “castelo” e o “campo caótico”?
  • Como podem os bispos e provinciais aprender a ponderar as decisões e a tomá-las no momento certo? Como devemos formar os futuros padres e religiosos? Quanto é que é investido na formação dos formadores?


Já aqui se consegue entrever que responsáveis pela condução da Igreja, assim como muitos “simples” cristãos, encontram alguma dificuldade em confiar em Jesus e acreditar nas Suas palavras: “A verdade vos libertará” (Jo 8,32). Encarar a verdade nua e crua não é fácil. Para o fazer, precisamos de coragem e de vontade de nos confrontarmos com a realidade, mesmo que ela seja perturbadora e dolorosa.

Seria bom que os cristãos confiassem mais em Deus do que em si mesmos, especialmente em tempos difíceis e face ao fracasso pessoal e institucional. Quem quer que abra os olhos, a mente e o coração deste modo, poderá reconhecer que o ser humano e espiritual está tanto em si, como nos outros. Também se abrirá à graça do arrependimento e do perdão prometidos a todos os que honestamente confessem as suas faltas e a sua culpa. Isto também significa a exposição à vergonha, à derrota, à dúvida e à suspeição. Tudo isto é difícil de carregar. No entanto, quem quer que o aceite com fé em Jesus Cristo Salvador, e quem procure apoio na comunidade dos crentes, é-lhe prometida a ajuda do Espírito Santo.

Uma atitude como esta abre espaço para que as agitações humanas e a desolação espiritual (como diria Santo Inácio) sejam profundamente enfrentadas e, com a ajuda da Graça, aliviadas ou mesmo curadas. Pode mesmo acontecer que depois de anos de depressão e mágoa, após um sofrimento incomensurável, à beira do desespero e do suicídio, a pessoa possa encontrar-se com a fonte da esperança e da vida.

Estes, de quem diríamos que atravessaram o inferno, são testemunhas credíveis do poder redentor de Jesus Cristo. Muitos dos que dão este testemunho, relatado com temor e correndo risco de uma re-traumatização, referiram a emergência de um novo sentido do significado da Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus.

Enquanto a Igreja se mantiver surda à voz e ao testemunho das vítimas – aqueles que conseguem percorrer este caminho de reconciliação, e aqueles que não o experimentaram – estará a ferir novamente não só os que sofreram às mãos dos representantes da Igreja, mas também não se abrirá à possibilidade de uma purificação interna através do reconhecimento da sua culpa, e excluirá aqueles que de modo especial se encontram ligados à Paixão de Jesus.

Porque é que Deus põe a Sua Igreja nesta situação? Que chamamento nos faz Ele, o Senhor da História, através dos escândalos e das crises deste tempo? Que quer Ele dizer aos cristãos com isto? Obviamente que devemos aterrar na realidade, que devemos tomar consciência do sofrimento indescritível das vítimas e do nosso envolvimento nesta força atuante do pecado. Ninguém poderá alguma vez derrotar completamente o mal, mesmo o mal do abuso de menores – acreditar nisso seria um erro fatal –, mas podemos fazer muito para manter o risco de abusos o mais reduzido possível. Também uma mãe amorosa faria qualquer coisa para proteger os seus filhos da desgraça e não os abandonar (5).


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* Membro da Comissão Pontifícia para a Protecção de Menores da Santa Sé desde 2014, Director do Centre for Child Protection, Director e Professor do Instituto de Psicologia da Pontifícia Universidade Gregoriana (Roma). (E-mail: Este endereço de e-mail está protegido de spam bots, pelo que necessita do Javascript activado para o visualizar ).


1 B. BÖHM e J. FEGERT, «Child Sexual Abuse in the Context of the Roman Catholic Church: A Review of Literature from 1981–2013», Journal of Child Sexual Abuse, Vol. 23 (2014), 635–656.

2 C. J. SCICLUNA e H. ZOLLNER (coord.), Das Symposium zum sexuellen Missbrauch Minderjähriger (simpósio sobre abuso sexual de menores), Pontifícia Universidade Gregoriana, 6–9 Februar 2012, R. M. Rieger, Munique, 2012.

3 Como demonstram os inquéritos estatísticos, tanto do John-Jay-Reports (E.U.A.) como os dados da Royal Commission australiana, a proporção dos abusadores no clero das diferentes confissões cristãs é comparável à dos ministros de culto muçulmano e judeu.

4 Cf. a averiguação encomendada pela DBK (Conferência Episcopal Alemã) sobre os casos de abusos, a Seelsorgestudie (estudo sobre o cuidado pastoral) na Alemanha, bem como os primeiros dados de uma série de estudos internacionais que estão a ser feitos no Centre for Child Protection na Pontifícia Universidade Gregoriana.

5 Inter alia, sobre as condições e possibilidades de trabalho de prevenção, vide S. WITTE e B. BÖHM, «E-Learning Curriculum Prävention von sexuellem Kindesmissbrauch für pastorale Berufe», Nervenheilkunde, vol. 34 (2015), 547–554; K. A. FUCHS e H. ZOLLNER, “Prävention in der katholischen Kirche: Drei Beispiele aus der Praxis katholischer Institutionen”, Sexueller Missbrauch in Institutionen: Entstehungsbedingungen, Prävention und Intervention, Weinheim – Basel, Beltz Juventa, 2015.

 
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