AGOSTO/SETEMBRO 2013 - A guerra civil síria: vizinhos, aliados e inimigos Versão para impressão
Raquel Vaz-Pinto*   


MAPASIRIA

Este artigo procura reflectir sobre a guerra civil síria e o seu contexto regional. Em primeiro lugar, procurarei analisar as razões que levam a que a Síria seja um país crucial no Médio Oriente e, em segundo lugar, irei reflectir sobre o contexto regional, tentando descortinar as alianças de apoio a Bashar al-Assad e às forças de oposição. Tendo em conta os apoios externos e a tensão religiosa entre xiitas e sunitas subjacente a este conflito, parece-nos que esta é uma tragédia humana sem fim à vista.

O entusiasmo provocado pela «Primavera Árabe» tem vindo a diluir-se com as notícias preocupantes que nos chegam pela comunicação social. Parecem longínquas as expectativas criadas pela Revolução de Jasmim na Tunísia, uma manifestação genuína da sociedade civil, e a sua expansão para outros países árabes. Esta expansão seguiu um padrão de manifestações de descontentamento e de revindicações de reformas económicas, sociais e políticas.1 Durante o ano de 2011 generalizou-se a ideia de que o caminho para uma democracia liberal nesta região seria linear. No entanto, o modo diferente como os países em questão lidaram com desafios similares tornou evidente que a ideia de uma «Primavera Árabe» homogénea e rápida não correspondia à realidade. Esta realidade foi ainda mais reforçada com a evolução recente da questão egípcia, onde os dilemas entre as exigências formais e de substância de uma democracia liberal são gritantes. O início da revolta síria enquadra-se nesta moldura de descontentamento e de reivindicação de reformas mas, ao contrário do que aconteceu noutros países como o Egipto, Tunísia e a Líbia – embora este último com intervenção externa e, para muitos, uma intervenção que excedeu o mandato do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) – Bashar al-Assad continua no poder. O conflito entre Damasco e os rebeldes adquiriu contornos de guerra civil e todos nós temos vindo a acompanhar a escalada de violência. Do ponto de vista das grandes potências também encontramos uma situação complexa. De um lado temos os Estados Unidos da América (EUA), o Reino Unido e a França, que são favoráveis à saída da família al-Assad do poder, e do outro lado encontramos a China e a Rússia com uma posição contrária. Na perspectiva destes dois membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU, a resistência a uma possível intervenção na Síria fundamenta-se na defesa dos conceitos basilares das relações internacionais, nomeadamente a soberania e a não-interferência em assuntos internos. Acresce o papel determinante da Rússia em matéria de fornecimento de armamento a Damasco, um dos melhores clientes de Moscovo. Não sabemos ainda se a intervenção liderada pelos EUA terá lugar, embora esta pareça cada vez mais uma miragem, nem sabemos ainda os detalhes do plano de entrega do armamento químico sírio. Há muitas questões no ar, em especial, como comprovar a entrega da totalidade do arsenal e, no caso de incumprimento, quais serão as consequências para Damasco. No entanto, mesmo que haja uma resolução equilibrada nesta questão controversa e sensível, subsiste a luta regional entre vários países pela hegemonia.

A realidade da Síria de hoje está bem distante dos tempos antigos em que este território era um centro de cultura e civilização.2 Não só do ponto de vista das fronteiras quando comparada com os tempos imperiais, mas sobretudo pelo contraste entre o dinamismo cultural, do qual Damasco, uma das cidades mais antigas do mundo, é o melhor exemplo e a estagnação vivida hoje em dia. A história da Síria é, sem dúvida, uma das mais ricas do mundo e este território «entra» no século XX como parte do Império Otomano. Esta colonização otomana durou até aos finais da Primeira Guerra Mundial.3 A desagregação do Império Otomano levou a um vazio estratégico no Médio Oriente que foi preenchido pelos britânicos e franceses. No caso da Síria, o domínio foi francês, embora de jure a França tivesse um mandato da Sociedade das Nações, a organização internacional criada nos escombros da Grande Guerra. Tal como outros territórios no período entre as duas grandes guerras, a Síria foi palco de uma resistência que visava a independência. Esta foi conseguida em 1946, passando a chamar-se República Árabe da Síria. A sua vida colectiva foi pautada por uma grande instabilidade e vários golpes militares. É ainda relevante destacar que, fruto do pan-arabismo, a Síria e o Egipto se uniram de Fevereiro de 1958 a Setembro de 1961.4 Paralelamente, a Síria também mergulhou no conflito entre Israel e os palestinianos, no seu caso com consequências desastrosas. Em 1967, Israel conquista à Síria um território crucial para a sua segurança estratégica: os Montes Golan.
A família al-Assad chega ao poder, em 1970, através de um golpe de estado liderado por Hafez al-Assad, membro do Partido Baath e da minoria alauita. A ditadura al-Assad continuou após a sua morte, passando a ser chefiada pelo seu filho e actual Presidente, Bashar al-Assad, em 2000. Ao longo destas décadas, a dinastia al-Assad cimentou uma divisão religiosa nas próprias estruturas do Estado. O exemplo mais flagrante é, sem dúvida, o controlo do Exército por oficiais alauitas leais à família al-Assad. Deste modo, o alauísmo, uma derivação do xiismo, assumiu cada vez mais um caracter identitário do próprio regime sírio. Esta característica ajuda a explicar o alinhamento externo com a grande potência xiita, o Irão, e o apoio ao Hezbollah. Do ponto de vista interno, o ressentimento contra Damasco não é novo e podemos encontrar ao longo das últimas décadas várias tentativas de rebelião reforçadas pela divisão religiosa, como por exemplo, o bombardeamento da cidade revoltosa de Hama em 1982. Para melhor compreendermos a força desta divisão temos de olhar para os números: dos cerca de vinte e dois milhões e meio de cidadãos sírios, cerca de 74% são sunitas e apenas 12% são alauitas.5 Estes números são o maior pesadelo de Bashar al-Assad e também nos ajudam a compreender a sua resistência em encetar reformas políticas.

Na perspectiva de Damasco, al-Assad luta não só pelo Estado sírio, mas sobretudo pela sobrevivência da comunidade alauita. Na guerra civil síria, o lado perdedor sabe que as consequências vão ser brutais e que o compromisso será muito difícil de atingir. Esta realidade ajuda-nos a perceber a violência desta guerra que já ultrapassou a fasquia dos cem mil mortos. Acresce o êxodo de refugiados para países vizinhos e, em especial, para a Turquia e a Jordânia. O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados estima que este conflito tenha causado até agora cerca de um milhão e setecentos mil refugiados e quatro milhões e duzentos e cinquenta mil «refugiados internos», ou seja, pessoas em fuga mas que não cruzaram a fronteira. Esta vaga de refugiados é também uma fonte de tensão para os países vizinhos, em especial, do ponto de vista económico, apesar da evidente questão humanitária. Tem sido difícil às autoridades jordanas apoiar esta vaga de refugiados e o mesmo se tem registado na Turquia.

Paralelamente, os rebeldes têm vindo a ganhar cada vez mais reconhecimento regional e encontram-se agrupados na Coligação Nacional da Revolução Síria e Forças da Oposição. Apesar desta crescente legitimidade internacional, persistem muitas dúvidas sobre a articulação coerente entre os vários grupos e a sua enorme heterogeneidade. Uma das razões que nos ajuda a compreender a violência e a escalada desta guerra civil é a presença externa, sobretudo através de armas e financiamento, de outros países que dão a este conflito um cariz regional. Esta é uma guerra que tem vindo a ser travada no terreno pelos próprios sírios, mas também há sinais claros de uma crescente presença de militantes estrangeiros a lutar do lado dos rebeldes. Esta presença oriunda de países vizinhos, mas também do teatro militar Afeganistão-Paquistão ou o Cáucaso e Ásia Central, tem feito levantar muitos sobrolhos aos países ocidentais.6 Em particular, se olharmos para o Afeganistão, um território ainda com a presença de tropas internacionais, sobretudo norte-americanas, e onde a «vitória» está longe de ser assegurada.
Do ponto de vista regional encontramos do lado de Bashar al-Assad o Irão, o Iraque e o grupo terrorista Hezbollah e do lado da oposição a Arábia Saudita, Qatar e Turquia.7 No entanto, para compreendermos este alinhamento temos que recuar a 2003 e à invasão do Iraque liderada pelos EUA. Do ponto de vista estratégico, esta invasão teve como consequência o fim do contrapeso iraquiano ao Irão. Aliás, a intervenção no Afeganistão já tinha beneficiado Teerão, pois os Talibãs de Kabul, radicais sunitas, eram inimigos do Irão xiita. Mas foi, sem dúvida, o derrube do regime de Saddam Hussein que fez toda a diferença para a política externa e estratégia de Teerão. Era o fim de uma ameaça sempre presente, em especial após a guerra entre os dois países na década de oitenta, um conflito muito violento e exacerbado pela Guerra Fria. Mas, para além do fim de uma ameaça, foi também uma oportunidade estratégica para a antiga Pérsia. Com o fim da ditadura de Saddam Hussein e a consequente eleição democrática neste país, os xiitas iraquianos (a maioria da população, com cerca de 60 a 65%), podem finalmente fazer ouvir a sua voz. O Iraque, enquanto nação e estado, tinha sido mantido sob mão de ferro, uma mão muito pesada para quem discordasse de Saddam Hussein, mas sobretudo para os xiitas e os curdos.8 Estes dois grupos foram particularmente visados, tendo Saddam chegado ao ponto de utilizar armas químicas. Deste modo, a consequência regional da invasão do Iraque em 2003 foi um Irão mais fortalecido. No entanto, o governo de Bagdad permanece bastante frágil e a luta sectária no Iraque parece não ter limites. São muito frequentes os atentados que atingem indiscriminadamente de lugares de culto a mercados e é palpável um clima de enorme insegurança e tensão num estado muito fragmentado. Para esta situação muito contribuiu a forma absolutamente desastrosa como os EUA geriram o pós-Saddam Hussein. O desmantelamento das estruturas estatais teve como consequências não só as represálias contra a população sunita mas, em particular, a desordem e insegurança. No fundo, ao invadir e não planear a pós-invasão, os norte-americanos deram aos iraquianos o pior de dois mundos. Esta instabilidade e falta de autoridade do próprio Estado acabou por trazer à tona a questão da fragmentação do Iraque em três «nações»: curda, sunita e xiita. A resposta a esta questão não é fácil, mas também está ligada à capacidade de Bagdad de diversificar a sua economia e melhorar o nível de vida dos seus cidadãos.

Esta aliança entre um governo xiita em Bagdad, Teerão e o seu apoio ao grupo terrorista libanês Hezbollah fez com que outros países na região começassem a tentar contrabalançar este alinhamento. As primeiras reações por parte da Arábia Saudita e Qatar foram de apoiar al-Assad no sentido de este levar a cabo reformas. No entanto, tendo em consideração as razões que levaram Damasco a não ceder nesta luta interna, quer Riade quer Doha viram uma oportunidade de mudança de regime. Ambos procuram instalar na Síria elites que não sejam alinhadas com Teerão. A Turquia também partilha as mesmas preocupações, embora com um perfil e empenho mais discretos, às quais temos de acrescentar a questão curda. Esta questão, um espinho cravado na construção da nação turca, herdeira do Império Otomano, é muito importante para Ancara. Neste sentido, a Turquia procura evitar qualquer compromisso que vise consagrar maior autonomia à população curda síria, com receio de que haja contágio para os curdos turcos, que constituem 18% da população.
A Arábia Saudita e o Qatar têm-se destacado no seu apoio às forças de oposição e procuram de modo claro equilibrar a expansão iraniana. No entanto, ao contrário de Teerão, estes dois países não têm actuado de forma coordenada. Há uma tensão clara entre Doha e Riade, tendo a diplomacia do Qatar assumido um papel cada vez mais activo na região. Para além disso também temos assistido a uma «ofensiva de charme»9 qatari: desde a vitória na corrida para organizar o Campeonato Mundial de Futebol em 2022, ao patrocínio do clube catalão Barcelona e à afirmação do canal de notícias Al-Jazeera. Na disputa síria o Qatar tem evidenciado uma preferência pela Irmandade Muçulmana, ao contrário da Arábia Saudita que apoia grupos salafitas. Esta divisão entre as duas potências sunitas não passa despercebida a Damasco. E, de certa forma, replica a situação vivida no Egipto e em outros países inseridos na «Primavera Árabe».
Não há uma resposta fácil para o conflito que actualmente devasta a Síria. Há muitas incertezas nesta guerra civil, cujo desfecho ainda está totalmente em aberto. Para além da tragédia humanitária que extravasa as fronteiras sírias, há também um enorme potencial para a destabilização de toda a região. Temos, por um lado, uma guerra civil reforçada pela convicção em ambos os lados de que a derrota será igual à morte e, por outro, interesses externos poderosos e empenhados. Deste modo, a Síria e a sua população são simultaneamente actores e palco de uma disputa pela hegemonia regional.

 

in Brotéria, volume 177, n.º 2/3 - Agosto/Setembro 2013, pp. 145-151.


 * Professora Auxiliar - Universidade Católica Portuguesa e Presidente da Associação Portuguesa de Ciência Política. (Comentários são bem-vindos para o e-mail: Este endereço de e-mail está protegido de spam bots, pelo que necessita do Javascript activado para o visualizar ).


 

1 Para uma excelente introdução a este tema e uma análise realista das suas incertezas, ver ROGEIRO, Nuno, Na Rua Árabe, causas e consequências das revoltas no Médio Oriente, Lisboa: D. Quixote, 2011.

2 Para uma viagem fascinante pela História do território sírio e da restante região, ver LEWIS, Bernard, The Middle East, 2000 years of history from the rise of Christianity to the present day, Londres: Phoenix, 2000.

3 Para uma excelente análise do Império Otomano e da sua influência nesta região, ver QUATAERT, Donald, The Ottoman Empire, 1700-1922, Cambridge: Cambridge University Press, 2005.

4 O impacto do movimento pan-arábico e também o seu declínio são muito bem explorados em ROGAN, Eugene, The Arabs, a History, Londres: Allen Lane, 2009, pp. 277-354.

5 Estes dados, bem como os seguintes, foram retirados do World Factbbook da Central Intelligence Agency em https://www.cia.gov/library/publications/the-world-factbook/index.html (último acesso: 13 Setembro 2013).

6 BARNES-DACEY, Julien e LEVY, Daniel, The Regional Struggle for Syria, Londres: European Council Foreign Relations, 2013, disponível em http://www.ecfr.eu/mena/syria (último acesso: 15 Setembro 2013). Esta é uma excelente análise que enforma muito este artigo.

7 Idem, ibidem.

8 Para uma excelente história do Iraque e também uma análise objectiva do período mais recente, ver TRIPP, Charles, A History of Iraq, Cambrigde: Cambridge University Press, 2007.

9 Uma expressão utilizada por Joshua Kurlantzick para explicar a política externa chinesa, em especial, em países ricos em matérias-primas, mas que nos parece indicada para demonstrar os esforços da diplomacia qatari em colocar o Qatar no «mapa».