Revista Brotéria

  
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JANEIRO 2017 - EDITORIAL - Dialogar num contexto plural e secularizado PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
António Júlio Trigueiros, SJ   
Terça, 28 Fevereiro 2017 12:03

A Brotéria inicia o seu 115º ano de vida com uma capa renovada, com uma nova gestão de temas e secções e com uma renovada equipa de direção. Parece-nos importante neste nosso primeiro editorial reafirmar a identidade da revista, recordar a herança cultural que ela representa e reformular a sua missão de serviço à sociedade e à Igreja em Portugal, no contexto das prioridades apostólicas dos jesuítas portugueses.

A Brotéria, fundada em 1902 como revista de ciências naturais, pelos professores do antigo colégio de S. Fiel, deve o seu nome a uma homenagem que os seus fundadores, os jesuítas Joaquim Silva Tavares, Cândido Mendes e Carlos Zimmermann quiseram prestar ao naturalista português Avelar de Brotero. Apesar de parecer à primeira vista uma designação muito circunscrita à primeira vocação da revista, centrada nas ciências naturais, o que é certo é que este nome se impôs no mundo cultural e cientifico português e é hoje uma referência incontornável na missão da Companhia de Jesus ao serviço da cultura e da ciência.

Caso único de longevidade na história de edições periódicas portuguesas, a Brotéria é herdeira de um rico percurso centenário, através do qual se podem seguir todas as grandes questões culturais, cientificas, sociais e políticas que estiveram debaixo do seu olhar por este longo período cronológico.

Os jesuítas portugueses sentem no momento presente o apelo de evangelizar num contexto plural e crescentemente secularizado, em três dimensões essenciais assumidas pela Companhia universal: o serviço da fé, a promoção da justiça e o diálogo com as culturas e religiões. Acham-se empenhados em promover a investigação superior, a reflexão crítica e a partilha eficaz de conhecimento, em diálogo e colaboração com agentes culturais, individuais e institucionais, dentro e fora do espaço eclesial, através de iniciativas culturais, marcando presença no espaço público[1]. A revista Brotéria e o Centro Cultural que se projeta constituir, é sem dúvida uma das obras por excelência mais vocacionada para responder a este apelo.

As oportunidades que se colocam à Brotéria no momento presente passam pelas profundas e rápidas mudanças na sociedade de hoje, cada vez mais secularizada e fragmentada, que põem sérias questões a um cristão. Num tempo em que os valores da tradição cristã vão deixando de ser uma referência, uma revista cultural católica pode continuar a ocupar nos meios de comunicação social um espaço de pensamento que se encontra vazio. Sem pretender ser um órgão de comunicação de massas, nem uma publicação cientifica, a Brotéria pode continuar a ser um veículo para a expressão, clarificação, reflexão e aprofundamento do pensamento cristão junto de um público interessado. Através de conteúdos sólidos, rigorosos, e seguros, facultando critérios de discernimento essenciais para a ação e decisão de um cristão, atenta às grandes questões do mundo atual, a Brotéria tem uma clara missão. O desafio inscreve-se na aproximação da proposta cristã a um mundo profundamente marcado por divisões politicas, religiosas e éticas, de que as novas formas de pobreza e exclusão, os extremismos religiosos, a violência, os desequilíbrios ecológicos, a desagregação da família e a ausência de horizontes na juventude são um claro sinal.

As grandes reformas que o Papa Francisco, em continuidade com os seus antecessores, procura levar a cabo promovendo um modelo de igreja em saída em direção ás fronteiras, que se traduza numa maior atenção aos excluídos, às minorias, aos refugiados, aos “descartáveis” da sociedade, às famílias feridas, é uma outra grande oportunidade para a nossa revista de transmitir a fé num Deus que revelou em Seu Filho o rosto da misericórdia. O ecumenismo e o diálogo inter-religioso serão igualmente alvo da nossa atenção num momento histórico em que a instrumentalização da questão religiosa voltou a estar no centro de conflitos e extremismos.

Na nova gestão temática que propomos a partir de agora na revista, pareceu-nos importante organizar um conjunto de cinco secções e um caderno cultural, que procuraremos manter ativos. A primeira secção, de Atualidade, está particularmente atenta a temáticas, acontecimentos ou debates relativos ao mês de publicação da revista. A segunda secção, de Sociedade e Política estará especialmente vocacionada para artigos de reflexão politica e social, procurando fornecer aos leitores uma visão crítica, integrada numa mundividência cristã da realidade, de temáticas relevantes para o momento presente. A terceira secção, que designamos de Religião, focar-se-á em temáticas de natureza eclesial ou religiosa, seja da perspetiva do magistério da Igreja e dos grandes desafios do atual pontificado, como da reflexão teológica e pastoral dali decorrente.  A quarta secção alternará entre temas de História, Filosofia, Ciência e Ética, e será o lugar privilegiado para a divulgação de trabalhos de investigação nestas áreas, bem como de breves notas de reflexão sobre questões de ética cristã.  A última secção, Artes e Letras, dará espaço a trabalhos de crítica literária e artística, na boa tradição que a revista cultivou desde 1925, quando alargou o seu âmbito à área das humanidades. Uma novidade deste numero é o novo caderno cultural mensal. É um espaço renovado, a partir da antiga secção de recensões, que se propõe recomendar mensalmente escritores, filmes, exposições, eventos musicais e livros, com curtos textos de recensão ou reflexão e que conta desde já com um grupo de colaboradores de diferentes gerações que esperamos vir a alargar.

A Brotéria foi dirigida desde 2008 até 2016 pelo P. António Vaz Pinto. Durante estes oito anos, a revista diversificou o seu número de colaboradores e passou a contar com um assíduo e interventivo conselho de redação que, à boa maneira inaciana, potenciou um contínuo processo de discernimento, de reflexão e de avaliação. Cumpre aqui agradecer todo o esforço e dedicação do anterior diretor, que levou por diante esta árdua tarefa com a tenacidade e a determinação que o caracterizam. Mantendo ao longo destes oito anos, com muito empenho, a periodicidade de sempre, fez dar à estampa a exigente publicação de dez números por ano. O P. António Vaz Pinto continuará a colaborar como até agora no conselho de redação da revista, que conta desde o inicio do ano com um outro novo membro, o P. Vasco Pinto de Magalhães, a quem queremos dar as boas vindas.

Resta-nos, por último, agradecer aos nossos colaboradores, leigos e jesuítas, que generosamente se dispõem a levar por diante esta missão e saudar os nossos leitores fazendo votos de que a nossa revista continue a ser um estímulo à reflexão e ao compromisso.



[1] Cf. Plano Apostólico 2016/2017 da Província Portuguesa da Companhia de Jesus.

 
FEVEREIRO 2017 - EDITORIAL - Do limite das liberdades individuais PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
António Júlio Trigueiros, SJ   
Terça, 28 Fevereiro 2017 12:03

Neste mês de fevereiro a imprensa portuguesa viu-se inundada de artigos de opinião a respeito da discussão resultante da petição do movimento cívico "Direito a morrer com dignidade", em defesa da despenalização da morte assistida. A Brotéria apresenta neste número na secção de atualidade, três artigos sobre esta questão, que reafirmam uma das mais antigas causas a que a revista tem dado atenção desde que o tema da Eutanásia veio para o espaço público.

Assinala-se precisamente neste mês de fevereiro, dezassete anos sobre a publicação de um número monográfico da nossa revista intitulado “Eutanásia – A dignidade da pessoa no ocaso da vida”. Trata-se de um número mono-temático que reuniu nesse ano 2000 um total de catorze textos sobre este tema, cinco da autoria de especialistas estrangeiros membros da Academia Pontifícia para a Vida, entre os quais se contava o saudoso Professor Daniel Serrão, que nos deixou no passado mês de janeiro. O tema é analisado segundo as perspetivas psicológica, antropológico-filosófica, teológica e jurídica e nele figuram textos de Gianfranco Ravasi, Elio Sgreccia, Jorge Biscaia, João Barreto, Mário Raposo, D. António Couto, Walter Osswald e Michel Renaud.

Como afirmava na sua nota de abertura o então diretor da Brotéria, Luís Archer “eutanásia é tema que urge amplo debate na sociedade portuguesa. Em inquérito recente, quase um terço dos inquiridos declarou não saber do que se trata. E dos restantes que julgam saber o que é eutanásia, há suspeitas de que muitos deles incluem, nesse conceito, práticas médicas inteiramente corretas, que são eticamente aceitáveis e até recomendáveis.” E conclui que “enquanto a sociedade portuguesa não tiver ideias claras sobre esta importante matéria, não poderá exercer o seu direito de tomar decisões responsáveis sobre o que se deve estabelecer para morrer com dignidade e em liberdade[1].

A discussão a que se assistiu ao longo deste mês veio demonstrar como este tema continua ainda a ser fonte de inúmeros equívocos, em que uma sede cega de afirmação dos direitos individuais parece querer sobrepor-se àquilo que realmente importa, a dignidade da pessoa quando se aproxima do seu fim. Dignidade que nem a idade avançada, nem a doença grave, nem a incapacidade física ou mental deveriam retirar. A petição em defesa da despenalização da eutanásia, utiliza a palavra dignidade partindo do falso pressuposto de que quem é velho, ou se encontra fragilizado, dependente ou limitado perdeu a sua dignidade, e por isso tem direito a pedir que lhe ponham termo à vida, esquecendo talvez que aquilo que é verdadeiramente digno não é a vida melhor ou pior que se tem, mas a própria pessoa humana que conserva a sua dignidade enquanto for pessoa. Por isso fazer depender a dignidade de uma vida humana da maior ou menor autonomia, do maior ou menor grau de bem-estar, conduz a uma absolutização dos direitos individuais, que nega de algum modo a pertença a uma sociedade, a uma família e que necessariamente isola, absolutiza e desumaniza.

Inácio de Loiola nos Exercícios Espirituais traça um dos princípios básicos da plena realização da pessoa humana, procurando levar o exercitante a alcançar um equilíbrio e uma liberdade interior que sem perder de vista o fim ultimo e o bem maior, conduza a uma aceitação da vida tal como ela é: longa ou breve, saudável ou doente, rica ou pobre, reconhecida ou não reconhecida.

A mensagem do Papa Francisco para a Quaresma de 2017, intitulada “O outro é um dom” parece vir muito ao encontro desta discussão. Trata-se de um comentário à parábola lucana do homem rico e do pobre Lázaro (Lc 16, 19-31). Refere o Papa que “cada vida que se cruza connosco é um dom e merece aceitação, respeito, amor” e acrescenta que a palavra de Deus “ajuda-nos a abrir os olhos para acolher a vida e amá-la, sobretudo quando é frágil”. A parábola comentada coloca-nos perante a situação de um homem pobre que sofre e tem nome, por contraposição à imagem de um homem rico que vive apenas centrado em si, alheio ao que se passa à sua volta e nem nome tem. Para este homem sem nomenada mais existe além do próprio eu e, por isso, as pessoas que o rodeiam não caiem sob a alçada do seu olhar[2]. O que impressiona na parábola é que este homem está tão autocentrado, tão anestesiado de “bem-estar” que recusa entrar em proximidade com aquele que tem diante dos olhos e que sofre.

O Papa Francisco reafirmou este mês a posição da Igreja contra a eutanásia, num documento para agentes pastorais divulgado por ocasião do Dia Mundial do Doente, que se assinalou a 11 de fevereiro. A Nova Carta dos Agentes de Saúde é dirigida não somente a médicos, enfermeiros e auxiliares, mas também a investigadores, farmacêuticos, administradores hospitalares e legisladores que trabalhem no campo da saúde. Apresentada em conferência de imprensa, aborda a atitude diante do doente em fase terminal. O texto versa temas como a alimentação e hidratação artificial, consideradas como “cuidados básicos devidos” aos doentes e a sedação paliativa nas fases mais próximas da morte, que a Igreja aceita. O novo documento divide-se em três secções “Gerar”, “Viver” e “Morrer” e rejeita práticas como o diagnóstico genético pré-implantação, o aborto ou experiências com menores ou adultos incapazes de decidir sobre as mesmas. Longe de esgotar todas as temáticas, a carta foi redigida justamente para oferecer um fio condutor “o mais claro possível para os problemas éticos que devem ser enfrentados no mundo da saúde, em harmonia com os ensinamentos de Cristo e do Magistério da Igreja”.

Em Outubro passado os cinco últimos bastonários portugueses da Ordem dos Médicos assinaram uma carta contra a prática da eutanásia, do suicídio assistido e da distanásia e declararam que “o médico que as pratique nega o essencial da sua profissão, tornando-se causa da maior insegurança nos doentes e gerador de mortes inaceitáveis[3]. O atual bastonário, recentemente eleito, Miguel Guimarães considera que esta é uma matéria que não deve ser entregue aos deputados, porque diz respeito a valores maiores e deve, por isso, ser alvo de um amplo debate na sociedade portuguesa. Destaca ainda que o Código Deontológico dos médicos proíbe a Eutanásia e que em caso de legalização, é preciso perceber qual a lei que terá mais força.

Com esta temática abrimos este número da Brotéria, esperando continuar como até aqui a esclarecer quem ainda careça de informação e a defender a inviolabilidade da vida humana como dom precioso revestido de uma dignidade que ninguém pode roubar.



[1] Brotéria, vol. 150 (2), Fevereiro 2000, p.135

[2] Papa Francisco, Mensagem para a Quaresma de 2017, 18 de Outubro de 2016.

[3] Diário de Noticias, 2 de Outubro de 2016.

 
JANEIRO 2017 - O papa e os cardeais: uma rebelião na igreja? PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Roque Cabral SJ e por António Ary SJ   
Terça, 28 Fevereiro 2017 11:39

O papa e os cardeais: uma rebelião na igreja?

Introdução

No passado mês de Novembro foi tornada pública uma carta enviada a 19 de Setembro ao Papa Francisco, assinada pelos Cardeais Raymond Burke, Walter Branmüller, Carlo Caffara e Joachim Meisner contendo cinco «dúvidas» acerca da Exortação Apostólica Amoris Laetitia, publicada a 19 de Março de 2016 no seguimento dos dois Sínodos sobre a família de 2014 e 2015. Nesta missiva, seguindo um esquema tradicional na Igreja, os prelados formulam cinco questões de resposta «sim» ou «não» (em latim, dubia) chamando a atenção para pontos nos quais, segundo eles, a Exortação parece contradizer o ensinamento tradicional da Igreja, nomeadamente acerca da possibilidade de admitir à comunhão os fiéis divorciados que voltaram a casar.

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MAIO/JUNHO 2016 - Brexit: uma perspectiva europeia PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Annette Bongardt e Francisco Torres*   
Segunda, 29 Agosto 2016 11:34

Artigo 2016-05-06 - Brexit Uma perspectiva europeia AB e FT


‘Let us agree not to step on each other’s feet’ said the cock to the horse.2

 

Provérbio inglês

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ABRIL 2016 - As barrigas têm coração PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Miguel Almeida, SJ *   
Quinta, 23 Junho 2016 11:05

Artigo 2016-04 - As barrigas têm coração MA  

No passado dia 13 de Maio foram aprovadas, numa mesma sessão parlamentar, duas alterações à lei que regula as técnicas de procriação medicamente assistida (PMA). No entanto, o modo como o processo se desenvolveu foi estranho, não só pelo quase absoluto silêncio a que foi votado o povo português sobre esta matéria, como o método utilizado pelos meandros políticos para que se alcançasse tal aprovação.

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